Fecha os olhos e me diga como foi o seu dia.
Sinto em seus olhos tristes a amargura de uma vida marcada pela solidão.
As suas lágrimas não negam a existência de um sentimento frígido e desabitado.
Sei que num choro contido, busca a esperança na escuridão.
Sofre de forma desmedida e o corpo já surrado, nas lições diárias de uma vida, repleta de desgraça e apatia, com remota aceitação.
Seu destino foi traçado sem qualquer percepção, você foi jogada numa curva em caminho sinuoso e desatenta despencou talude abaixo.
O tombo foi vigoroso e a ferida exposta, fez você se esquecer do passado e insistentemente duvidar do futuro.
Seu coração virou pedra, sua espera virou dor, suas mãos trêmulas apontaram ao horizonte, onde talvez pudesse encontrar a felicidade, mas sem mensurar a distância que teria que percorrer.
E caminhando aos passos lentos, pensamento em devaneio, insatisfeita com o mundo, maldito mundo, funesto mundo, que te criaste e te jogaste num abismo amaldiçoado, sentindo-se uma fístula arraigada no centro do universo.
Desorientada, uma abantesma no crepúsculo, mas, ainda, sob o brilho das estrelas e sob o auspício da lua, singra por toda noite, agora não mais sentindo o frio e pouco se importando com a patifaria de todos os seus dias, e, em silêncio, e agora já curvada e desejando o fim, e depois de tanto sofrimento, percebe que jamais temerá a morte, “dádiva” que se tornou, nesse momento, o desígnio mais desejado, porque não há mais nada para se acreditar.
Wandre P. Andrade
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